domingo, 1 de maio de 2011

Decidi voltar para casa depois que a chuva passou. O ar estava úmido e a temperatura, agradável. Enquanto caminhava, as muitas folhas que estavam ao chão serpenteavam ao sabor do vento, chamando minha atenção. Não chovia mais, porém diversas gotas caíam das árvores, atingindo-me suavemente. Conforme me aproximava de casa, o céu foi se tornando cada vez mais e mais cinza: o dia ensolarado virava noite, muito semelhante à forma como sentia meu próprio coração. O vento bagunçava meu cabelo violentamente e me senti viva. Triste, mas viva.

Mais à frente passei por um vendedor de mancebos. Ele caminhava lentamente, levando nos ombros o peso de 5 mancebos de madeira, enquanto cantava o lamento do coração partido, sem se incomodar com o resto do mundo: “ontem eu precisei de você, hoje já não quero saber. Não vou falar do meu amor, não vou falar da minha dor, nunca mais”.

Esse homem ficou para trás, mas sua voz continuou ecoando em minha mente.

Quando começou a garoar, as poucas pessoas que andavam pela rua abriram seus guarda-chuvas. Eu preferi sentir os pingos gelados, e ergui o rosto para que eles tocassem minha face. Cheguei em meu prédio, e o porteiro, que geralmente me cumprimenta timidamente, veio falar que hoje faz 17 anos que o Senna morreu, e que depois dele nunca mais houve outro igual.

Entrei em casa e a tempestade começou a cair lá fora. Aqui dentro, silêncio absoluto, rompido apenas pelos pingos que batem na janela, e pelas teclas do computador enquanto digito minha dor nas entrelinhas.


1 comentários:

Mario Cau disse...

Belinha,

Que texto bonito... Triste, mas bonito... E eu nem sei como comentar, mas fico feliz de saber que talvez essas nuvens negras tenham ido embora e aberto um pouco mais de sol pra vc...

Existe beleza e poesia na tristeza, e ela acaba virando combustível pro que muitos chamam de Arte. Inclusive eu. Inclusive a minha.

Mas há que se reerguer sempre, e abrir o céu e ver o sol, pois existe muita beleza e poesia nos dias ensolarados também. E são neles que a gente mais vive...

Beijão!